Uma preocupação com os nossos tempos
(*) ARIOVALDO LUNARDI
“A Magnífica Humanidade criada por Deus encontra-se hoje perante uma escolha decisiva: erguer uma nova torre de Babel ou construir a cidade onde Deus e a humanidade habitam juntos.”
Com esta frase inaugural, Papa Leão XIV abre a encíclica Magnifica Humanitas, estabelecendo imediatamente o sentido profundo do documento e o significado de seu próprio título. A expressão “Magnífica Humanidade” não se refere simplesmente à inteligência, à criatividade ou ao poder técnico do homem, mas sobretudo à extraordinária dignidade da pessoa humana criada à imagem de Deus e chamada à comunhão com Ele. Toda a encíclica é construída sobre essa convicção fundamental: a humanidade não é grandiosa pelo domínio que exerce sobre o mundo, mas porque foi criada para a verdade, para o amor e para a fraternidade.
Desde as primeiras páginas, Leão XIV apresenta a revolução tecnológica contemporânea — especialmente a inteligência artificial — como uma das maiores encruzilhadas da história humana. O Pontífice reconhece os benefícios trazidos pelo progresso técnico, mas adverte que nenhuma tecnologia é verdadeiramente neutra. Em uma das passagens centrais do documento, afirma que a técnica “na prática, não é neutra, porque tem o rosto daqueles que a concebem, financiam, regulam e utilizam”. A preocupação do Papa não nasce de um pessimismo em relação à ciência, mas da percepção de que a tecnologia pode ser utilizada tanto para promover a dignidade humana quanto para aprofundar novas formas de exclusão, manipulação e controle.
A introdução da encíclica possui forte densidade espiritual e antropológica. Leão XIV recorda que “o mistério do homem só no mistério do Verbo encarnado se esclarece verdadeiramente”, reafirmando a centralidade de Cristo para a compreensão da pessoa humana. Em Jesus Cristo, escreve o Papa, “esta magnífica humanidade torna-se o Caminho, a Verdade e a Vida”. A questão da inteligência artificial, portanto, não é tratada apenas em termos técnicos ou econômicos, mas à luz da própria vocação do homem criado por Deus e chamado à plenitude da comunhão divina.
O Pontífice utiliza duas imagens bíblicas para interpretar o tempo presente: a torre de Babel e a reconstrução das muralhas de Jerusalém narrada no livro de Neemias. Babel simboliza a tentação da autossuficiência humana, da uniformização e do poder desvinculado de Deus. Jerusalém, ao contrário, representa a reconstrução comunitária baseada na responsabilidade partilhada, na comunhão e na presença divina. “A primeira escolha”, escreve o Papa, “não é entre um ‘sim’ ou um ‘não’ à tecnologia, mas entre edificar Babel ou reconstruir Jerusalém”.
No primeiro capítulo, intitulado “Um pensamento dinâmico fiel ao Evangelho”, Leão XIV desenvolve uma ampla reflexão sobre a Doutrina Social da Igreja. O Papa recorda que a Igreja sempre procurou interpretar os acontecimentos históricos à luz do Evangelho, respondendo às grandes transformações sociais sem abandonar a verdade cristã. A Doutrina Social é apresentada não como um conjunto rígido de fórmulas, mas como “um corpus vivo de verdades” e uma verdadeira “teologia da comunhão na história”.
O documento estabelece um paralelo explícito entre a Revolução Industrial enfrentada por Leão XIII na Rerum Novarum e a atual revolução digital. Assim como a industrialização trouxe crescimento econômico acompanhado de exploração operária e desigualdades sociais, a inteligência artificial apresenta enormes possibilidades técnicas ao mesmo tempo em que cria riscos de exclusão, concentração de poder e manipulação social.
Ao longo do capítulo, o Papa insiste que fé e ciência não são inimigas. A Igreja, afirma ele, não teme o progresso científico, mas recorda que a ciência, sozinha, não é capaz de responder às perguntas fundamentais sobre o bem, a justiça e a verdade. “O progresso técnico”, afirma a encíclica, “não pode substituir o discernimento moral nem preencher a sede espiritual do coração humano”. A ciência amplia capacidades, mas não determina o sentido ético do uso dessas capacidades.
Leão XIV desenvolve ainda uma profunda reflexão sobre a presença da Igreja na história. A Igreja não se coloca acima do mundo nem pretende substituir as responsabilidades próprias da política ou das instituições civis. Seu papel consiste em acompanhar a humanidade, discernir os sinais dos tempos e servir ao bem comum. A Doutrina Social da Igreja aparece, assim, como um caminho de discernimento comunitário, alimentado pela Palavra de Deus, pelo diálogo com as ciências humanas e pela escuta da realidade histórica.
O segundo capítulo, dedicado aos fundamentos e princípios da Doutrina Social da Igreja, constitui o eixo ético da encíclica. Leão XIV reafirma que a dignidade humana é inviolável e jamais pode ser subordinada à lógica econômica, à eficiência técnica ou ao controle algorítmico. O homem não pode ser reduzido a dados, estatísticas ou perfis digitais, porque possui valor transcendente que precede qualquer utilidade social.
Nesse contexto, a encíclica torna-se particularmente crítica ao atual modelo econômico digital. O Papa denuncia a tendência de transformar pessoas em mercadorias informacionais exploradas por sistemas que monitoram preferências, emoções e comportamentos para fins comerciais e políticos. O documento alerta para o surgimento de uma nova concentração de poder exercida por grandes corporações tecnológicas capazes de influenciar culturas, opiniões públicas e até processos democráticos.
Leão XIV amplia também o conceito tradicional da destinação universal dos bens. Segundo ele, no século XXI não apenas a terra e os recursos naturais devem servir ao bem comum, mas igualmente os dados, os algoritmos, os sistemas de inteligência artificial e as plataformas digitais. O conhecimento tecnológico, afirma o Papa, não pode transformar-se em monopólio de poucos grupos econômicos, sob pena de gerar uma nova oligarquia digital global.
Outra dimensão importante do capítulo é a reafirmação dos direitos humanos como fundamento indispensável da convivência social. O Papa recorda o direito à vida “desde a concepção até o seu fim natural” e insiste na necessidade de proteger os mais vulneráveis, promover a justiça social e reconhecer concretamente a dignidade das minorias, das mulheres e dos povos marginalizados.
O terceiro capítulo, intitulado “Técnica e domínio. A grandeza da pessoa humana perante as promessas da IA”, constitui o centro filosófico e antropológico da encíclica. Leão XIV reconhece os avanços impressionantes da inteligência artificial em áreas como medicina, educação, comunicação e automação. Contudo, insiste que nenhuma máquina pode possuir consciência moral, liberdade interior ou verdadeira capacidade de amar.
A inteligência artificial, escreve o Papa, pode simular diálogo, criatividade e até empatia, mas permanece incapaz de experimentar sofrimento, esperança, misericórdia ou transcendência. Existe um grave risco cultural quando a humanidade começa a tratar máquinas como substitutas da pessoa humana ou como entidades equivalentes à consciência humana.
Nesse contexto, Leão XIV critica diretamente o transumanismo e o pós-humanismo, correntes que pretendem superar os limites naturais da condição humana por meio da tecnologia. O Papa afirma que fragilidade, vulnerabilidade e mortalidade não são falhas a serem eliminadas, mas dimensões constitutivas da experiência humana. A verdadeira grandeza do homem não consiste em buscar um aperfeiçoamento técnico ilimitado, mas em sua capacidade de amar, sacrificar-se e abrir-se ao outro.
A encíclica insiste que a inteligência humana não se reduz ao processamento de informações. A sabedoria humana envolve discernimento moral, experiência existencial e abertura ao mistério de Deus. Por isso, nenhuma máquina poderá substituir plenamente aquilo que constitui o núcleo mais profundo da pessoa humana.
No quarto capítulo, “Salvaguardar o humano na transformação. Verdade, trabalho e liberdade”, o Papa examina as consequências sociais e políticas da inteligência artificial. Leão XIV manifesta grande preocupação com o impacto da automação sobre o trabalho humano. Embora reconheça que a tecnologia possa tornar certas atividades mais seguras e eficientes, condena o uso da inteligência artificial exclusivamente para redução de custos e maximização de lucros.
O trabalho, segundo a encíclica, não é mero instrumento econômico. Trabalhar significa participar da construção da sociedade, exercer criatividade e colaborar com a própria obra da criação divina. O desemprego estrutural provocado pela automação indiscriminada representa, portanto, não apenas uma crise econômica, mas também uma crise de dignidade humana. “Uma sociedade que descarta trabalhadores em nome da eficiência”, escreve o Papa, “corre o risco de descartar também a sua própria humanidade.”
O documento dedica atenção especial ao problema da manipulação da verdade. Leão XIV alerta para o crescimento da desinformação produzida artificialmente, das fake news e da manipulação emocional realizada por algoritmos invisíveis. A encíclica fala ainda da necessidade de uma verdadeira “ecologia da comunicação”, capaz de proteger a liberdade interior das pessoas e preservar a busca comum pela verdade.
O Papa manifesta igualmente preocupação com a vigilância digital e com a possibilidade de surgimento de sociedades excessivamente monitoradas. Tecnologias capazes de rastrear permanentemente comportamentos humanos podem enfraquecer gravemente a liberdade pessoal, a privacidade e a autonomia da consciência.
Uma das passagens mais contundentes da encíclica refere-se à inteligência artificial aplicada à guerra. Leão XIV denuncia “a normalização da guerra” e critica duramente o desenvolvimento de armas autônomas capazes de decidir sobre a vida humana sem intervenção moral direta. O Papa afirma que nenhuma máquina deve possuir autoridade para determinar a morte de uma pessoa e propõe um verdadeiro desarmamento ético da inteligência artificial.
O quinto e último capítulo, “A cultura do poder e a civilização do amor”, possui caráter profundamente espiritual e civilizacional. Leão XIV contrapõe duas possíveis direções para o futuro da humanidade. A primeira é a cultura do poder, baseada na dominação, no controle tecnológico, na eficiência absoluta e na lógica da exclusão. A segunda é a civilização do amor, fundada na fraternidade, na solidariedade, na justiça e no reconhecimento da dignidade de cada pessoa.
Ao longo desse capítulo, o Papa recorda diversos Pontífices que contribuíram para o desenvolvimento da Doutrina Social da Igreja. São mencionados especialmente Leão XIII, com a Rerum Novarum; São João XXIII; São Paulo VI; São João Paulo II; Bento XVI; e Papa Francisco, cujos ensinamentos sobre fraternidade, ecologia integral e cultura do descarte aparecem como continuidade viva do Magistério social da Igreja.
Leão XIV também retoma, ainda que indiretamente, a tradição agostiniana das duas cidades — a cidade terrena e a Cidade de Deus — para explicar o conflito entre uma civilização fundada no domínio técnico e outra fundada na comunhão humana. A razão humana, afirma o Pontífice, precisa permanecer subordinada à verdade moral e ao bem comum.
Ao final da encíclica, o Papa retorna ao centro cristológico de toda a reflexão. “O Verbo fez-se carne” torna-se a resposta definitiva às tentações de desumanização tecnológica. O homem é grandioso porque Deus assumiu a natureza humana e elevou a própria humanidade à dignidade da comunhão divina. Nenhuma máquina, nenhum algoritmo e nenhum sistema econômico poderá substituir aquilo que constitui o núcleo mais profundo da pessoa humana: sua liberdade, sua capacidade de amar e sua vocação eterna à comunhão com Deus.
Não se pode encerrar este breve comentário sem mencionar uma das passagens mais belas e inesperadas da encíclica: a referência de Leão XIV ao escritor J.R.R. Tolkien. O Papa apresenta Tolkien como “um escritor católico do século XX” e cita as palavras de Gandalf em O Retorno do Rei:
“Não nos compete dominar todas as marés do mundo, mas fazer o que está ao nosso alcance pelo bem dos dias que nos foram dados, arrancando o mal dos campos que conhecemos, para que aqueles que vierem depois encontrem uma terra limpa para cultivar.”
A citação aparece no contexto da responsabilidade moral diante dos desafios tecnológicos e sintetiza admiravelmente o espírito da encíclica. O Papa utiliza Tolkien para combater o sentimento contemporâneo de impotência diante das grandes estruturas econômicas e digitais. O dever humano, ensina Leão XIV, não é controlar toda a história, mas permanecer fiel ao bem no espaço concreto onde cada pessoa vive.
Logo após citar Tolkien, o Pontífice escreve uma das frases mais marcantes de todo o documento: “A civilização do amor não nasce dum gesto único e espetacular, mas duma soma de pequenas e tenazes fidelidades, que travam a desumanização.”
Aqui se encontra talvez o coração espiritual da encíclica. Diante de um mundo tentado pelo poder absoluto, pela técnica sem limites e pela desumanização, a esperança cristã permanece fundada na fidelidade humilde ao bem, na coragem moral, na amizade, no sacrifício e na capacidade humana de permanecer aberta a Deus.
(*) ARIOVALDO LUNARDI é advogado, teólogo pela PUC-SP, pós-graduado em Doutrina Social da Igreja, paroquiano da Catedral de Santo Antônio em Osasco e autor do livro Santo Antônio de Pádua – vida, orações e milagres (2025).
